sábado, 24 de outubro de 2026

Educação para todos, mas quem são todos?


 

©️2026 Odete Donato 


Falar em educação para todos parece, à primeira vista, algo simples. Afinal, a educação é um direito garantido. Mas será que, na prática, todos têm as mesmas oportunidades de aprender, participar, permanecer na escola e serem respeitados em suas diferenças?

Essa é uma pergunta que precisa fazer parte das nossas discussões sobre educação.

A escolha dessa temática surge justamente a partir das mudanças que municípios e estados vêm realizando em seus currículos para atender às propostas da Base Nacional Comum Curricular (BNCC). Inserir discussões sobre diversidade, relações étnico-raciais, gênero e sexualidade no cotidiano escolar, significa reconhecer que a escola não está isolada da sociedade, pelo contrário: ela é parte dela e também pode contribuir para transformá-la.

Como afirma Saviani (2009, p. 5), a educação é um direito de todos e um dever do Estado. Para o autor, a escola possui um papel fundamental na formação dos sujeitos e na construção da cidadania.

Mas, quando falamos em educação inclusiva, o que estamos realmente dizendo?

Muitas vezes, quando ouvimos essa expressão, pensamos imediatamente em estudantes com deficiência ou com dificuldades de aprendizagem e nas adaptações necessárias para garantir sua participação no processo educacional. É claro que essa dimensão é fundamental, entretanto, a inclusão precisa ser compreendida de maneira muito mais ampla.

Uma educação verdadeiramente inclusiva é aquela que reconhece e valoriza as diferenças humanas. É uma educação que considera as diversidades étnicas, sociais, culturais, intelectuais, físicas, sensoriais, religiosas e de gênero. É aquela que garante não apenas o acesso à escola, mas também a participação, a aprendizagem, a permanência e o sentimento de pertencimento.

Não basta estar na escola. É preciso sentir-se parte dela.

E esse talvez seja um dos grandes desafios da educação contemporânea.

Vivemos em uma sociedade na qual, mesmo em pleno século XXI, o racismo, o machismo, o sexismo, a LGBTfobia, a discriminação contra pessoas com deficiência e tantas outras formas de preconceito ainda fazem parte do nosso cotidiano. E a escola não está imune a isso.

Essas questões aparecem nas salas de aula, nos corredores, nos pátios e, atualmente, também nos ambientes virtuais. Aparecem em forma de bullying, piadas racistas, comentários machistas, atitudes homofóbicas, exclusão, silenciamento e tantas outras situações que, muitas vezes, são tratadas como "brincadeira".

Mas quando uma brincadeira humilha, exclui ou fere alguém, ainda podemos chamá-la apenas de brincadeira? É preciso falar sobre isso!

Por esse motivo, discutir diversidade e inclusão não deve ser uma ação pontual ou uma atividade realizada apenas em datas comemorativas. Não podemos falar sobre racismo somente no mês da Consciência Negra, sobre diversidade apenas em determinados projetos ou sobre inclusão apenas quando temos um estudante com deficiência na sala de aula.

Essas questões precisam fazer parte da vida cotidiana da escola e atravessar as diferentes áreas do conhecimento.

Afinal, que tipo de cidadão queremos formar?

Queremos estudantes que apenas reproduzam informações ou sujeitos capazes de pensar criticamente, questionar injustiças, respeitar as diferenças e participar ativamente da sociedade?

A escola precisa ser um espaço onde o estudante possa aprender, pensar, falar, ouvir, questionar, participar e exercer sua cidadania.

E aqui surge uma pergunta que considero ainda mais importante:

Educação para todos. Mas, afinal, todos quem?

Será que estamos construindo uma educação pensada para todos ou apenas para aqueles que conseguem se adaptar ao modelo que historicamente foi estabelecido?

Uma educação pensada para a classe média e a classe média alta?

Para pessoas brancas?

Para quem mora em regiões centrais e possui acesso aos serviços básicos?

Para quem tem alimentação adequada todos os dias?

Para quem vive em uma família considerada "tradicional"?

Para pessoas heterossexuais?

Para aqueles que seguem a religião predominante?

E onde ficam aqueles que não se encaixam nesses padrões?

Essas perguntas são incômodas. E talvez seja justamente por isso que precisamos fazê-las.

Elas nos obrigam a olhar para nossa prática enquanto professores, gestores, estudantes e profissionais da educação, mas também para nossa própria posição enquanto sujeitos de uma sociedade marcada por desigualdades.

Judith Butler, ao discutir as regulações de gênero, chama nossa atenção para a existência de mecanismos sociais que estabelecem normas e padrões sobre aquilo que é considerado aceitável. Quando ampliamos essa reflexão para questões de classe, raça, deficiência, religião, gênero e sexualidade, percebemos que diferentes formas de poder podem determinar quem tem voz, quem é reconhecido e quem acaba sendo colocado à margem.

É nesse ponto que a educação assume um papel fundamental.

A escola pode simplesmente reproduzir os padrões existentes ou pode questioná-los.

Pode ensinar os estudantes a aceitarem o mundo como ele é ou pode ajudá-los a compreender que o mundo também pode ser transformado.

É por isso que acredito em uma EDUCAÇÃO EMANCIPADORA.

Uma educação que não tenha medo da diversidade.

Uma educação que não silencie as diferenças.

Uma educação que não transforme o diferente em problema.

Uma educação que compreenda que as diferenças fazem parte da própria condição humana.

Passaram-se séculos e muitos padrões ainda permanecem. O molde não se rompeu completamente, mas a educação pode ser uma das ferramentas mais importantes para começar a quebrá-lo.

Precisamos criar mecanismos para enfrentar as desigualdades presentes na educação brasileira. Precisamos pensar não apenas no acesso à escola, mas também na permanência e na aprendizagem dos estudantes. Precisamos compreender por que determinados grupos continuam encontrando mais obstáculos para concluir sua trajetória escolar.

A escola precisa ser muito mais do que um espaço de transmissão de conteúdos.

Ela precisa ser um espaço de acolhimento, respeito, diálogo, participação, conhecimento e transformação.

Para que isso aconteça, precisamos olhar para o estudante como um todo. Não apenas para suas notas, mas para sua história, sua cultura, sua identidade, suas experiências, seus sonhos e suas dificuldades.

Ensinar também é ouvir.

Ensinar é reconhecer.

Ensinar é respeitar.

Ensinar é criar possibilidades.

E talvez seja justamente aí que esteja o verdadeiro sentido de uma educação para todos.

Uma educação para todos não significa oferecer exatamente a mesma coisa para todos. Significa reconhecer que somos diferentes e, justamente por isso, precisamos de condições que garantam a todos oportunidades reais de aprender e participar.

Educação para todos não pode ser apenas um discurso bonito. Precisa ser uma prática cotidiana.

Precisamos de uma escola que não apenas permita a entrada, mas que faça cada estudante querer permanecer.

Uma escola onde ninguém precise esconder quem é para ser aceito.

Uma escola onde a diferença não seja motivo de vergonha, mas parte da riqueza humana.

Uma escola onde todos tenham vez e voz.

Porque, no fim das contas, falar de EDUCAÇÃO PARA TODOS É FALAR SOBRE QUE SOCIEDADE QUEREMOS CONSTRUIR.

E eu acredito que essa construção começa quando compreendemos que NINGUÉM DEVE SER DEIXADO PARA TRÁS.

REFERÊNCIA

BUTLER, Judith. Regulações de Gênero. cadernos pagu (42), janeiro-junho de 2014:249-274; e

SAVIANI, Dermeval. Escola e democracia: teorias da educação, curvatura da vara, onze teses sobre a educação política. 41. ed. Campinas, São Paulo: Autores Associados, 2009.

ODETE DONATO
















  • Graduada em Pedagogia pela UNEB Campus XII – Guanambi (2015);
  • Pós-graduada em Práticas Docentes Interdisciplinares pela UNEB, Campus V (2018);
  • Pós-graduada em Ensino de Ciências Naturais e Matemática pelo IFbaiano Campus – Guanambi (2019);
  • Pós-graduada em Psicopedagogia Clínica, Institucional e Hospitalar )pela Faculdade Wenceslau Braz – Facibra/PR; - Caetité (2019);
  • Pós-graduada em Docência do Ensino Superior pela Facei, Salvador/BA (2022);
  • Mestre em Ensino Linguagem e Sociedade pela UNEB, Campus VI (2023);e
  • Professora da rede municipal de ensino de Brumado/BA

Nota do Editor:

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